Há uma ironia política no cenário que se desenha para 2027. Luiz Inácio Lula da Silva, quem garantiu um quarto mandato, terá de governar um Brasil cujo Congresso se deslocou significativamente para a direita. Donald Trump, por sua vez, chega à segunda metade de seu último mandato diante de uma derrota republicana nas eleições legislativas americanas, que devolveram aos democratas o controle da Câmara dos Representantes e do Senado. São líderes de trajetórias, convicções e projetos profundamente diferentes, mas que terão pela frente o mesmo obstáculo: legisladores dispostos a limitar seus projetos. Em ambos os países, as urnas produziram uma mensagem que merece ser compreendida antes de ser contestada. O eleitorado não concedeu a nenhum dos dois um cheque em branco.
No Brasil, o paradoxo é especialmente revelador. Lula consegui permanecer no Planalto, mas os partidos que apoiaram seu adversário no segundo turno elegeram 286 dos 513 deputados federais, contra 124 de legendas alinhadas ao petista. Outros 103 pertencem a partidos sem posicionamento nacional unificado. Isso não significa que exista uma oposição automática de 286 votos, mas seria um erro tratar essa maioria potencial como uma circunstância irrelevante. O crescimento do campo conservador demonstra que a derrota na disputa pelo Executivo não representou uma rejeição generalizada de suas propostas. Pelo contrário, uma parcela expressiva dos brasileiros parece desejar um governo submetido a maior vigilância parlamentar, especialmente em questões econômicas, tributárias e institucionais.
O Senado poderá tornar esse recado ainda mais contundente. O PL começará a próxima legislatura com uma bancada prevista de 29 senadores, enquanto o PT terá apenas dez. A disputa pela presidência da Casa será um primeiro teste da nova correlação de forças. Mais do que dificultar a aprovação de projetos, um Senado menos receptivo ao Planalto poderá exercer fiscalização mais rigorosa, impor obstáculos a indicações de autoridades e questionar iniciativas do Executivo. Nada disso constitui, por si só, uma ameaça à democracia. A fiscalização parlamentar é uma de suas garantias. O perigo surgirá se o governo interpretar toda resistência legislativa como sabotagem e procurar transferir sistematicamente ao Supremo Tribunal Federal decisões que pertencem ao debate político.
A economia será provavelmente o terreno mais difícil para Lula. Um governante inclinado à expansão do papel do Estado, à ampliação de programas públicos e à busca de receitas adicionais encontrará resistência entre parlamentares preocupados com a carga tributária, o endividamento e a capacidade de investimento do setor privado. O Centrão continuará oferecendo caminhos de negociação, mas cada acordo poderá cobrar seu preço em concessões políticas e orçamentárias. Lula conhece profundamente esse mecanismo, que ajudou a sustentar seus governos anteriores. A diferença é que agora enfrentará um Congresso no qual o conservadorismo dispõe de maior força eleitoral. Para um líder habituado a apresentar suas prioridades como expressão da vontade popular, será necessário reconhecer que a vontade popular também se manifestou na eleição de seus adversários.
Nos Estados Unidos, Trump enfrentará um desafio institucionalmente mais rígido. A vitória democrata nas duas Casas, com resultados surpreendentes até mesmo em estados tradicionalmente republicanos, representa um revés que não poderá ser simplesmente atribuído à hostilidade de Washington. O custo de vida, as controvérsias de sua política comercial e o desgaste de decisões internacionais contribuíram para um ambiente eleitoral desfavorável. Isso não torna ilegítimas suas prioridades de segurança das fronteiras, fortalecimento econômico ou defesa dos interesses estratégicos americanos. Significa, porém, que Trump precisará demonstrar resultados e recuperar a confiança de eleitores que decidiram impor limites ao Partido Republicano. Sua capacidade de mobilização continua relevante, mas mobilizar uma base política não é o mesmo que construir uma maioria legislativa.
Trump conservará, entretanto, instrumentos de poder que Lula dificilmente poderá reproduzir no sistema brasileiro. O veto presidencial americano exige uma maioria de dois terços em ambas as Casas para ser superado, tornando difícil que os democratas imponham unilateralmente sua agenda. Trump também permanecerá à frente da administração federal, com competências relevantes em política externa, imigração e segurança nacional, sempre dentro dos limites estabelecidos pela Constituição e pelas leis. Em contrapartida, o Senado poderá bloquear nomeações, enquanto as comissões parlamentares ganharão condições de investigar sua administração. A possibilidade de impeachment também voltará ao debate, embora uma eventual destituição dependa de uma maioria qualificada no Senado. Trump poderá resistir ao avanço democrata, mas governar exclusivamente por ordens executivas e vetos seria uma estratégia de sobrevivência, não um projeto sustentável de governo.
É precisamente aqui que os destinos dos dois líderes se separam. Lula opera em um sistema multipartidário no qual alianças podem mudar conforme a matéria em discussão. Trump enfrentará uma oposição mais organizada, em um Congresso dominado por dois grandes partidos e com menores possibilidades de recomposição de maiorias mediante acordos de coalizão. Lula poderá negociar sua governabilidade, embora ao custo de reduzir a ambição de seu programa. Trump poderá bloquear boa parte da agenda democrata, mas terá dificuldades para ampliar a própria. Há ainda a questão sucessória: enquanto Lula inicia um novo mandato, Trump se aproxima da disputa de 2028 sem a possibilidade constitucional de concorrer novamente. Seu desafio será preservar a influência sobre o Partido Republicano e construir um legado político que sobreviva à sua saída da Casa Branca.
Existe, finalmente, uma lição que ultrapassa as rivalidades entre esquerda e direita. Em um mundo no qual regimes autoritários e ditaduras comunistas continuam restringindo o pluralismo político, a capacidade de um Parlamento contrariar o chefe do Executivo deveria ser reconhecida como uma virtude democrática. Isso vale tanto para um Congresso conservador que fiscaliza Lula quanto para um Congresso democrata que investiga Trump. Nenhum governante deve estar acima das instituições, e nenhuma oposição deveria transformar suas prerrogativas em instrumento de paralisia deliberada do país. Lula e Trump serão julgados não apenas pelo que conseguirem realizar, mas pela maneira como reagirem aos limites impostos pelas urnas.
