Nos últimos dias, uma curiosa campanha tem ganhado força nas redes sociais: perfis que se apresentam como “ex-bolsonaristas” e que, supostamente decepcionados com Flávio Bolsonaro, afirmam que agora votarão em Lula. Essa narrativa, que soa artificial e ensaiada, é um exemplo clássico de Astroturfing político — a criação de uma falsa percepção de movimento popular espontâneo. O objetivo é claro: desmoralizar a base da direita e induzir o eleitor conservador a acreditar que há uma debandada em massa rumo ao PT. Basta visitar perfis tradicionalmente ligados à direita para encontrar comentários desse tipo, muitas vezes reforçados por contas que claramente nunca foram bolsonaristas.
O problema dessa estratégia é que ela parte de uma premissa frágil. Quem votou em Jair Bolsonaro duas vezes dificilmente enxergará em Lula uma alternativa “honesta” ou “redentora”. O histórico do petismo, marcado por escândalos como Lava Jato, mensalão e desvios em estatais, não desaparece com uma campanha digital. A ideia de que Lula seria um refúgio contra a corrupção é, no mínimo, uma contradição evidente.
É verdade que a direita falhou em comunicar de forma clara os vínculos comerciais de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master. Mas também é verdade que não há evidência de corrupção nesse episódio. A esquerda, por sua vez, aproveitou o momento para explorar a dúvida e tentar transformar a indignação legítima em abstenção ou migração de votos. Trata-se de uma jogada de marketing político, não de uma mudança real de convicções.
O eleitor de direita, em geral, se preocupa com valores como honestidade, liberdade e responsabilidade fiscal. Já o eleitor de esquerda costuma ser mobilizado por pautas identitárias, programas sociais e ressentimentos históricos. O que o PT tenta fazer agora é vestir a armadura do adversário — fingir que compartilha da mesma trajetória — para penetrar nos grupos conservadores e semear a dúvida. É o chamado Cavalo de Tróia discursivo.
Do ponto de vista psicológico, essa estratégia se apoia no “testemunho do converso”: ao dizer “eu era como você”, o militante desarma a barreira defensiva do eleitor de direita. É uma forma de empatia tática, que busca validar inseguranças silenciosas e tornar aceitável a transição para Lula. Mas trata-se de uma empatia falsa, construída para manipular, não para dialogar.
O risco para a direita é cair na armadilha do puritanismo. A busca por um candidato perfeito, sem máculas, pode levar setores conservadores à abstenção — e isso é exatamente o que o PT precisa para se manter no poder. Uma CPI do Banco Master poderia esclarecer dúvidas e recompor a confiança em Flávio, mas a Câmara parece pouco disposta a abrir essa caixa de Pandora.
No fim das contas, a narrativa do “ex-bolsonarista arrependido” não passa de uma construção artificial. Não há evidência de que eleitores fiéis a Bolsonaro estejam migrando em massa para Lula. O que existe é uma campanha digital coordenada para criar essa impressão. O eleitor conservador precisa reconhecer o truque e não se deixar isolar pela sensação de ser “o último fiel”. A direita não precisa de perfeição, mas de unidade contra um projeto que já demonstrou, repetidas vezes, sua incapacidade de governar sem escândalos.
O Brasil não pode se dar ao luxo de cair em ilusões fabricadas. A escolha não é entre perfeição e corrupção, mas entre manter viva a esperança de mudança ou aceitar a repetição de velhos vícios. O eleitor que valoriza liberdade, justiça, honestidade e responsabilidade não encontrará em Lula a resposta. O que encontrará é apenas mais uma encenação digital, cuidadosamente roteirizada para parecer espontânea.










