O discurso inflamado de José Dirceu em seu aniversário de 80 anos não foi apenas uma celebração pessoal, mas um sinal claro de que o Partido dos Trabalhadores já acendeu o alerta vermelho diante da ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. A retórica de “revolução política e social” revela o nervosismo de um partido que, acostumado a dominar o Norte e o Nordeste, agora se vê diante de um cenário de empate técnico – ou até mesmo de derrota – em estados que antes eram considerados bastiões lulistas.
O fato de Flávio aparecer numericamente à frente de Lula no Amapá e em empate no Amazonas é mais do que um detalhe estatístico: é um terremoto político. O PT sempre contou com a força simbólica de Lula no Norte como uma espécie de reserva estratégica. Se essa base começa a ruir, o partido perde não apenas votos, mas também a narrativa de que representa o “Brasil profundo”.
Não surpreende, portanto, que Dirceu tenha recorrido ao velho manual petista: transformar a disputa em uma batalha entre o bem e o mal, acusando o adversário de ser “subserviente” a Donald Trump e ao “império da guerra”. Essa caricatura, porém, soa cada vez mais desgastada. A tentativa de associar Flávio ao crime organizado ou de pintá-lo como um fantoche de Washington não encontra eco em uma população cansada de slogans e mais preocupada com segurança, emprego e custo de vida.
Curiosamente, o PT insiste em demonizar Trump e, por extensão, qualquer aproximação com os Estados Unidos, enquanto fecha os olhos para regimes autoritários como o da Rússia, Irã e Cuba. Essa seletividade ideológica expõe o paradoxo petista: condena suposta “subserviência” a democracias ocidentais, mas relativiza ditaduras e sistemas comunistas que sufocam liberdades. O eleitor percebe essa incoerência.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem se mostrado hábil em ocupar o espaço deixado pelo pai. Ao contrário do que o PT tenta vender, sua imagem não é apenas uma cópia de Jair Bolsonaro, mas a de um candidato que busca se apresentar como moderado, capaz de dialogar com setores do Centrão e ampliar palanques regionais. Essa estratégia pode ser decisiva para reduzir resistências no Nordeste e consolidar vitórias no Norte.
O desespero do PT em recorrer ao TSE para remover vídeos de Flávio e Carlos Bolsonaro também é sintomático. Quando a narrativa não convence, resta apelar para a censura judicial. Mas essa postura pode sair pela culatra: ao tentar silenciar o adversário, o partido reforça a percepção de que teme o debate aberto e democrático.
Em última análise, o avanço de Flávio Bolsonaro no Norte é um sinal de que o eleitorado brasileiro está disposto a repensar suas escolhas. O PT, que acreditava ter garantido a eleição ao afastar Jair Bolsonaro, agora se vê diante de um novo desafio. E se a tendência se confirmar, a narrativa de Lula como líder incontestável das regiões mais pobres pode se desfazer, abrindo espaço para uma disputa real e equilibrada em 2026.
O jogo mudou – e o PT sabe disso. É por isso que os discursos de Dirceu soam mais como um alerta interno do que como uma mensagem ao povo. O partido percebe que, pela primeira vez em muito tempo, sua hegemonia no Norte está seriamente ameaçada. E essa ameaça tem nome e sobrenome: Flávio Bolsonaro.
