Há uma ironia histórica quase inacreditável tomando forma na América Latina. A Venezuela, país que Hugo Chávez prometeu transformar em vitrine do socialismo do século XXI e que Nicolás Maduro conduziu por um período de repressão política e devastação econômica, agora é apresentada por Donald Trump como candidata a se tornar o 51º estado americano. Durante um comício no Texas, na terça-feira (27), o presidente dos Estados Unidos chegou a sugerir que os venezuelanos poderiam trocar a eleição presidencial pela escolha de um governador. A declaração, ainda distante de qualquer proposta formal de incorporação territorial, revela uma mudança extraordinária no discurso de Washington sobre Caracas. Enquanto Trump celebra investimentos no setor petrolífero e uma aproximação econômica que considera histórica, o Brasil parece caminhar politicamente na direção contrária: reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato e assiste ao ressurgimento de preocupações que remetem à experiência chavista.
A diferença entre os dois caminhos é tão simbólica quanto inquietante. Durante décadas, Chávez e Maduro utilizaram o antagonismo aos Estados Unidos como instrumento de mobilização política, apresentando o capitalismo americano como inimigo de uma revolução que prometia soberania, igualdade e prosperidade. O resultado foi um país marcado pelo êxodo de milhões de cidadãos, pela destruição de oportunidades econômicas e pelo esvaziamento das liberdades. Agora, Trump aposta no petróleo, nos investimentos privados e na influência americana como motores de uma possível reconstrução venezuelana.
No Brasil, o resultado oficial de Lula sobre Flávio Bolsonaro, por 51,79% contra 48,21% dos votos válidos, revelou um país profundamente dividido e uma parcela significativa da população disposta a apoiar uma espécie de chavismo à brasileira. A história venezuelana ensina que a deterioração democrática nem sempre começa com o fechamento do Congresso ou a suspensão das eleições. Chávez chegou ao poder pelo voto e avançou gradualmente sobre instituições que deveriam fiscalizá-lo. No Brasil, as indicações feitas por Lula e Dilma Rousseff ao Supremo Tribunal Federal alimentam discussões sobre a influência política na composição da Corte. A origem das nomeações não comprova a submissão dos magistrados, mas uma democracia não pode depender exclusivamente da confiança na imparcialidade de autoridades com poderes tão amplos e que são indicadas diretamente pelo presidente. Em outras palavras, trata-se de uma pessoa que escolhe aqueles que terão a prerrogativa de julgá-la.
A questão torna-se especialmente delicada quando envolve os adversários do governo. Na Venezuela, a perseguição à oposição deixou de ser uma suspeita e tornou-se uma realidade documentada por organizações internacionais. María Corina Machado foi impedida de concorrer à Presidência em 2024, enquanto outros opositores enfrentaram detenções e restrições políticas. No Brasil, a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à suposta tentativa de golpe de Estado colocou o sistema judicial no centro da disputa política nacional. É necessário reconhecer que houve um julgamento e uma condenação judicial, mas parte dos ministros responsáveis por julgá-lo já havia manifestado opiniões políticas sobre ele. Uma Justiça verdadeiramente independente precisa ser capaz de responsabilizar governantes por crimes comprovados e, simultaneamente, demonstrar que não se converteu em instrumento de eliminação política.
Se as questões institucionais ainda exigem vigilância e análise, a reação econômica à reeleição de Lula foi imediata. Na segunda-feira (26), o Ibovespa despencou 13,88%, levando a Bolsa brasileira a acionar o mecanismo de interrupção das negociações pela primeira vez desde 2020. O dólar disparou 8,21%, encerrando o pregão a R$ 5,403. No dia seguinte, a Bolsa voltou a recuar, ainda que modestamente, enquanto o câmbio devolveu parte da alta. Não se pode transformar dois pregões em sentença definitiva sobre quatro anos de governo. Entretanto, ignorar a dimensão desse movimento seria igualmente irresponsável. Investidores que apostavam em uma mudança de orientação econômica passaram a recalcular os riscos fiscais e políticos de um novo mandato petista. O dinheiro não possui ideologia, mas responde rapidamente às expectativas de rentabilidade, segurança jurídica e estabilidade. E a mensagem inicial do mercado foi de desconfiança.
Foi precisamente a combinação entre concentração de poder e decisões econômicas desastrosas que tornou a experiência venezuelana tão destrutiva. Chávez expandiu a intervenção estatal, aprofundou a dependência do petróleo e, sob seu governo, o país viu a corrupção crescer exponencialmente. Maduro herdou esse sistema e agravou sua deterioração com repressão e políticas que contribuíram para o colapso econômico. No Brasil, a dívida trilionária, a fuga de capitais e a automação de processos, que pode colocar em risco milhões de empregos, representam fatores capazes de aproximar o país da trágica experiência venezuelana. A história não precisa se repetir de maneira idêntica para oferecer advertências. O perigo aparece quando a expansão permanente do Estado, a irresponsabilidade fiscal, a desconfiança em relação à iniciativa privada e a hostilidade contra adversários passam a ser consideradas características naturais do exercício do poder.
Também seria um erro imaginar que a defesa da liberdade depende de uma adesão incondicional a qualquer líder. Trump pode representar uma ruptura importante com a complacência internacional diante do autoritarismo venezuelano, mas a liberdade dos venezuelanos deve incluir o direito de decidir seu próprio destino, não apenas a substituição de uma tutela ideológica por outra influência externa. Ainda assim, acredito que a maioria dos venezuelanos que veem com bons olhos a possibilidade de seu país passar a integrar os Estados Unidos, em vez de continuar vivendo à sombra de um possível retorno ao socialismo.
O grande paradoxo latino-americano de 2026 talvez seja este: enquanto a Venezuela, antigo laboratório do chavismo, é cortejada por Washington com promessas de investimento, reconstrução e até uma improvável integração aos Estados Unidos, o Brasil parece disposto a conceder mais quatro anos a um projeto político que desperta preocupações sobre concentração institucional e sustentabilidade econômica. Diante das semelhanças históricas, Lula poderá repetir a receita de Chávez e Maduro, embora os brasileiros tenham eleito um número significativo de deputados e senadores que poderiam se posicionar contra o governo e sua maioria no Supremo Tribunal Federal. O problema é que esses mesmos parlamentares, protegidos pelo foro privilegiado, também podem acabar submetidos ao julgamento da própria Corte, que, em última instância, teria o poder de decidir seus destinos políticos e jurídicos.
