Historicamente, os movimentos de esquerda na América Latina têm vivido uma espécie de matrimônio com o crime organizado. O exemplo mais gritante talvez seja o da Venezuela, onde o Tren de Aragua se consolidou como aliado do regime de Chávez-Maduro, operando quase como braço paralelo do poder. Na Colômbia, as FARC e o ELN mantiveram proximidade histórica com partidos de esquerda, inclusive com aqueles que hoje ocupam o governo. No México, governos progressistas sempre hesitaram em aplicar a força necessária para pôr fim ao império dos cartéis. O padrão é claro: quando a esquerda governa, o crime organizado encontra terreno perfeito para se expandir.
No Brasil, a esperança era de que a recente designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pudesse marcar uma ruptura nesse ciclo. A medida, articulada com o apoio dos Estados Unidos, representava uma oportunidade histórica para que o governo brasileiro se somasse a um esforço internacional contra facções que dominam territórios, exploram comunidades e financiam seu poder através do tráfico de drogas. Milhões de brasileiros vivem sob o terror dessas organizações, e a expectativa era de que o Estado finalmente se posicionasse ao lado da população.
Mas a ilusão se transformou em decepção. Lula, em vez de apoiar a iniciativa, buscou desculpas difíceis de engolir para justificar sua oposição ao combate internacional ao crime organizado. Evocou o discurso da soberania, como se proteger facções criminosas fosse um ato de independência nacional. O problema é que o governo brasileiro tem sido incapaz de lidar com a situação internamente. E digo incapaz porque não quero acreditar que seja conivência ou cumplicidade — embora a linha entre omissão e colaboração, nesse caso, se torne cada vez mais tênue.
A população, por sua vez, já deu seu veredito. Segundo pesquisa do PoderData divulgada em 3 de junho de 2026, mais da metade dos brasileiros considera positiva a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e CV como terroristas. Para quem enfrenta diariamente o medo da violência, a palavra “terrorismo” não é um conceito abstrato, mas uma realidade vivida nas ruas, nos transportes públicos e dentro das próprias comunidades. O eleitor não avalia esse tema pela ótica diplomática, mas pela promessa de segurança. E nesse ponto, o governo Lula se distancia da maioria.
É revelador que essa medida tenha sido impulsionada pela aproximação entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Ambos têm insistido em chamar o problema pelo nome e enfrentá-lo sem rodeios. Essa clareza contrasta com a retórica evasiva do Planalto. Enquanto uns defendem ação, outros preferem discursos. E o resultado é que o crime segue crescendo, fortalecendo-se e corroendo as bases da sociedade.
O Brasil não pode se dar ao luxo de relativizar o terror imposto pelas facções. A designação de PCC e CV como organizações terroristas é um passo simbólico, mas poderoso, para enquadrar o problema na sua real dimensão. Ao rejeitar essa iniciativa, Lula envia a mensagem errada: a de que prefere preservar discursos diplomáticos a enfrentar o crime. E isso, inevitavelmente, gera a percepção de que o governo está mais preocupado em proteger sua narrativa do que em proteger seu povo.
No fim, não é sobre o Brasil contra os Estados Unidos, nem sobre soberania contra ingerência. É sobre ‘não soltar a mão de ninguém’. Quem perde quando o crime organizado é combatido? Certamente não é o povo. A resposta está diante de nós: só os criminosos têm a ganhar com a hesitação do governo. E é por isso que a luta contra o terror das facções precisa ser firme, clara e sem concessões.










