A tragédia que se abateu sobre a Venezuela após os dois terremotos recentes não pode ser vista apenas como um desastre natural. Ela é, sobretudo, o reflexo de um país fragilizado por décadas de socialismo, corrupção e desprezo pelas necessidades básicas da população. O que deveria ser uma resposta rápida e organizada transformou-se em mais um capítulo da decadência nacional: prédios mal construídos desabando, sistemas de emergência inexistentes e famílias enterrando seus mortos sem sequer poder nomeá-los.
As construções que ruíram não caíram apenas pela força dos abalos sísmicos. Elas desmoronaram porque foram erguidas sem estudos técnicos, em terrenos inadequados, muitas vezes com alvarás comprados por meio de esquemas corruptos. O regime chavista nunca se preocupou com planejamento urbano ou com a criação de estruturas capazes de enfrentar catástrofes. A prioridade sempre foi a propaganda e a repressão política, e agora o povo paga com vidas o preço dessa negligência.
O silêncio imposto pelo governo é talvez o aspecto mais cruel dessa tragédia. Redes sociais bloqueadas, sites de notícias censurados, informações escondidas. Em vez de permitir que o povo se organize e receba ajuda, o regime prefere controlar a narrativa, como se fosse possível esconder o sofrimento de milhares de famílias. Essa censura é a marca registrada de qualquer ditadura: a verdade é vista como inimiga, e a dor do povo é tratada como detalhe inconveniente.
Relatos de forças de segurança saqueando os escombros reforçam a sensação de abandono. Em vez de apoiar voluntários e equipes de resgate, policiais e militares limitam o acesso e se aproveitam da tragédia para roubar. É um retrato vergonhoso de um Estado que deveria proteger, mas que se transformou em predador. A indignação cresce porque não se trata apenas de incompetência, mas de uma perversão moral que corrói qualquer esperança de reconstrução.
As famílias que hoje choram seus mortos enfrentam não apenas a dor da perda, mas a humilhação de não poder se despedir dignamente. Corpos anônimos são enterrados sem nome, sem velório, sem memória. Essa desumanização é consequência direta de um regime que nunca enxergou seus cidadãos como pessoas, tratando-os apenas como peças descartáveis de um jogo político.
Ainda assim, há sinais de solidariedade vindos de fora. Governos e organizações de diferentes partes do mundo enviaram equipes para ajudar, enfrentando as barreiras impostas pelo regime. Essa ajuda é um alívio, mas também um lembrete doloroso: a Venezuela só recebe apoio quando acontece uma catástrofe. E mesmo assim, limita a atuação de quem vem para salvar vidas, como se a preservação da imagem fosse mais importante do que a preservação da vida.
O que os terremotos revelaram mais uma vez é que a Venezuela não está apenas em ruínas físicas, mas em ruínas institucionais. O desastre natural foi amplificado por um sistema político que voltou a se expor em sua falência. O povo merece mais do que silêncio e sacolas anônimas. Merece dignidade, liberdade e futuro. O socialismo prometeu um paraíso, mas entregou um inferno — e agora, diante da tragédia, fica claro que não foi a terra que traiu os venezuelanos, mas sim o regime que os abandonou.
