Imagine um avião voando em direção a uma montanha. Os instrumentos de bordo estão apitando, as luzes vermelhas estão acesas e os alarmes não param de tocar. Ainda assim, boa parte dos passageiros continua discutindo o serviço de bordo. É mais ou menos essa a situação da economia brasileira.
Existe um momento em que a dívida deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a se comportar como uma força da natureza. O Brasil está se aproximando perigosamente desse ponto.
Os juros pagos pela dívida pública brasileira já se aproximam de R$ 1 trilhão por ano. Não estamos falando de R$ 1 trilhão investido em hospitais, escolas, infraestrutura ou inovação. Estamos falando apenas do custo dos juros. É o preço de sustentar um Estado que gasta mais do que arrecada e empurra a conta para o futuro.
Ao mesmo tempo, os juros dos títulos públicos brasileiros de longo prazo já superam 14% ao ano, um dos maiores níveis reais do planeta. Isso não é um detalhe técnico para economistas discutirem em seminários. É o mercado enviando um recado direto e inequívoco: emprestar dinheiro ao governo brasileiro está ficando cada vez mais arriscado.
É possível recorrer à Física para entender melhor esse processo. A Física busca descobrir as leis que governam o universo. A Economia, embora não seja uma ciência exata, procura compreender as forças que governam consumidores, empresas, investidores e governos. Em ambas as áreas existe uma característica comum: desequilíbrios produzem reações inevitáveis. Não por acaso existe um campo chamado Econofísica, em que pesquisadores utilizam ferramentas da Física para estudar o comportamento coletivo dos mercados financeiros. Afinal, tanto na natureza quanto nos mercados existem milhões de agentes interagindo simultaneamente. E é justamente nesse ponto que a analogia da força da gravidade se torna útil.
O juro pode ser visto como uma massa dotada de enorme poder gravitacional sobre o dinheiro. Quanto maior essa massa, maior a tendência de os recursos abandonarem atividades produtivas para orbitar o setor financeiro. Assim como um planeta altera a trajetória dos corpos ao seu redor, juros excessivamente elevados desviam capitais, encarecem investimentos, reduzem consumo e dificultam a expansão das empresas.
Mas a Física oferece uma analogia ainda mais inquietante. Existe um estágio extremo da gravidade conhecido como buraco negro. Um ponto em que a atração gravitacional se torna tão intensa que nem mesmo a luz consegue escapar. Em economia, algo semelhante ocorre quando a dívida cresce tanto que parcela crescente da riqueza produzida pelo país passa a ser consumida pelo serviço da própria dívida. O sistema continua funcionando. As empresas continuam abertas. Os mercados continuam operando. Os governos continuam fazendo promessas. Mas uma quantidade cada vez maior de recursos desaparece no horizonte de eventos dos juros. O Brasil ainda não chegou a esse ponto. Mas parece estar caminhando na direção errada.
Outra lei da Física ajuda a compreender o problema: a inércia. Corpos de grande massa são difíceis de tirar de sua trajetória. O mesmo ocorre com países excessivamente endividados. Quanto maior a dívida, maior a dificuldade de mudar o rumo. Quanto maior a inércia, menor a capacidade de reagir quando surge uma crise.
Essa realidade aparece diretamente nos múltiplos de valuation. Quando os juros sobem, os investidores exigem retornos maiores para correr riscos. O resultado é simples: passam a pagar menos por cada real de lucro, receita ou patrimônio das empresas. Os múltiplos encolhem. O fluxo de caixa futuro perde valor. As ações tornam-se mais vulneráveis a quedas. É como se uma massa adicional fosse colocada sobre todos os ativos de risco da economia.
Wall Street resume esse fenômeno numa frase clássica: “the bond market is the adult in the room.” O mercado de renda fixa é o adulto da sala. E esse adulto está gritando.
O mercado de renda fixa funciona como um detector de fumaça da economia. Quando os riscos aumentam, ele dispara antes dos demais mercados. Hoje, a fumaça é visível.
Juros longos acima de 14%, curva de juros inclinada, aumento dos prêmios exigidos pelo mercado e deterioração fiscal são sinais difíceis de ignorar. Todas as taxas da curva doméstica encerraram recentemente acima de 14%, enquanto o DI 2029 alcançou 14,37%. A pergunta é simples: se tudo está tão bem quanto o governo afirma, por que os credores estão cobrando preços cada vez maiores para financiar o país?
Do lado fiscal, a situação não ajuda. A Dívida Pública Federal encerrou 2025 em R$ 8,635 trilhões, aumento próximo de R$ 1 trilhão em apenas doze meses. Os juros nominais pagos pelo setor público atingiram R$ 1,08 trilhão em doze meses, equivalentes a 8,35% do PIB. Apenas nesse período, a despesa anual com juros aumentou cerca de R$ 145 bilhões.
Pense nisso por um instante.
Não estamos falando de uma nova malha ferroviária. Não estamos falando de um programa nacional de infraestrutura. Não estamos falando de uma revolução educacional Estamos falando apenas do custo adicional para carregar a dívida.
Mesmo diante desse quadro, o governo insiste em ampliar gastos, multiplicar programas de curto prazo e lançar medidas de caráter eleitoral para sustentar popularidade e garantir mais alguns anos no poder. O resultado é previsível: deterioração da confiança, aumento dos prêmios de risco e aprofundamento do campo gravitacional da dívida.
A gravidade não negocia. Ela apenas age.
É verdade que o PIB cresceu cerca de 2%. Mas esse número, isoladamente, impressiona cada vez menos. O crescimento foi obtido mediante medidas fiscais e parafiscais estimadas em aproximadamente R$ 150 bilhões. É como um caminhante que continua avançando enquanto adiciona pedras à própria mochila. Continua andando, mas cada passo fica mais difícil. Além disso, uma expansão de 2% é modesta para um país emergente que convive com baixa produtividade, infraestrutura deficiente e elevado endividamento. Porém o Brasil comemora esse desempenho como se tivesse descoberto petróleo em Marte.
O problema é que esse crescimento está sendo financiado com uma dívida que cresce mais rápido do que a própria economia. Estamos comemorando o velocímetro enquanto ignoramos o marcador de combustível. A história se repete com uma regularidade quase mecânica. Gastança. Euforia. Deterioração fiscal. Perda de confiança. Crise. Mudam os governos. Mudam os discursos. Muda a propaganda. O roteiro permanece praticamente o mesmo. A economia brasileira parece presa numa versão fiscal de “Dia da Marmota”.
Esse quadro seria menos preocupante se o ambiente internacional fosse favorável. Mas não é. Pela primeira vez desde os anos que antecederam a crise financeira de 2008, os rendimentos dos títulos soberanos das principais economias voltam a níveis historicamente elevados. Os Treasuries americanos de 10 e 30 anos orbitam a faixa dos 5%, enquanto títulos britânicos e japoneses também registram retornos significativamente maiores do que aqueles observados durante a última década. Pesquisas recentes mostram que 62% dos gestores globais já projetam juros de 6% para os títulos americanos de 30 anos. Isso significa uma coisa: o custo global do dinheiro está aumentando. E quando o retorno dos títulos americanos sobe, sobe junto o custo do crédito, do financiamento, dos investimentos e das dívidas públicas em praticamente todo o planeta. É como se a gravidade tivesse aumentado simultaneamente em toda a economia mundial.
O cenário que emerge dessa combinação é preocupante: juros estruturalmente mais altos, crescimento econômico mais lento, endividamento recorde e governos cada vez mais limitados para responder a choques inesperados.
Tudo lembra os anos que antecederam 2008. Naquela época, muitos sinais estavam presentes, mas eram tratados como incidentes isolados. A diferença é que os governos ainda possuíam espaço fiscal para reagir. Hoje, até os bombeiros estão ficando sem água.
Segundo o FMI, a dívida pública global já alcança 94% do PIB mundial e pode atingir 100% até o final desta década. Em outras palavras, o planeta inteiro resolveu financiar o presente tomando emprestado do futuro. Agora a conta está chegando.
O detector de fumaça já disparou.
A gravidade está aumentando. A inércia também. E o buraco negro continua crescendo.
Mercados podem ignorar a realidade durante algum tempo. Mas a realidade raramente retribui a gentileza.
Quando a Física vence uma discussão, ela não pede autorização. A Economia costuma agir da mesma forma.
*Otávio Fakhoury – Administrador de empresas, investidor, observador dos mercados, dos ciclos econômicos e das consequências inevitáveis da aritmética fiscal e monetária.
