A quatro dias do segundo turno, a eleição deixou de ser uma disputa de projetos e passou a funcionar como uma competição entre métodos de persuasão. Lula aposta em promessas, fake news, denúncias e campanhas televisivas carregadas de emoção. Flávio Bolsonaro, por sua vez, concentra esforços nas redes sociais, envia aliados ao sertão e tenta dialogar diretamente com eleitores de baixa renda que votaram no PT durante décadas, mas que agora demonstram sinais de dúvida. É uma estratégia mais lenta e menos vistosa, porém politicamente mais interessante. Talvez por isso o petismo pareça hoje mais ansioso do que confiante.
Os números ajudam a explicar essa inquietação. No primeiro turno, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, abrindo uma vantagem de cerca de 2,23 milhões de votos. Desde então, pesquisas e agregadores indicam uma disputa apertada, mas frequentemente favorável ao senador. O dado mais relevante, porém, não está na média nacional, e sim na geografia eleitoral: o Nordeste continua sendo a principal trincheira petista e, ao mesmo tempo, o alvo prioritário da campanha adversária.
À primeira vista, os 63,77% conquistados por Lula na região, contra 30,85% de Flávio, sugerem uma fortaleza inabalável. Mas essa leitura ignora uma tendência importante. Flávio recebeu 1,61 milhão de votos a mais no Nordeste do que Jair Bolsonaro havia obtido em 2022 e ampliou sua presença em estados estratégicos como Bahia, Ceará e Maranhão. Seus aliados falam em conquistar parte do eleitorado petista nesta reta final. A meta pode ser ambiciosa demais, mas o raciocínio é simples: Flávio não precisa vencer no Nordeste; basta reduzir a diferença. Lula, ao contrário, depende de preservar quase integralmente sua vantagem regional.
Diante desse cenário, o petismo fez o que costuma fazer quando se sente acuado: trocou a defesa de resultados por advertências sobre o futuro. O TSE determinou a remoção de conteúdos ligados à campanha de Lula que afirmavam que programas sociais seriam encerrados em um eventual governo adversário, por considerar que as alegações não possuíam sustentação suficiente. A lógica por trás da estratégia é transparente. Se o eleitor julgar os últimos anos, o governo corre riscos. Se julgar os temores relacionados ao que viria depois, suas chances aumentam. O medo transforma-se, assim, em instrumento de mobilização eleitoral.
A estratégia petista explora a defesa de Flávio sobre cortes de gastos públicos, mas há uma distância considerável entre discutir contenção de despesas e afirmar, com certeza, que serviços específicos serão eliminados, o que configura uma manipulação da realidade. O embate eleitoral escolheu o próprio TSE como eixo central da campanha, e a instituição tem observado um aumento no número de solicitações para remover conteúdos ou investigar condutas das campanhas.
Há, por fim, uma questão maior em jogo. O modelo petista continua baseado na força do Estado, de governos locais e de estruturas tradicionais de mobilização política. Flávio tenta oferecer uma narrativa diferente, alinhada a uma direita internacional que aposta menos na tutela estatal e mais na promessa de ascensão individual. Por isso, a eleição de domingo dirá menos sobre dois candidatos do que sobre uma pergunta mais profunda: o eleitor pobre do Nordeste continua respondendo à lógica histórica do PT ou começou a considerar uma alternativa? A vantagem de Flávio é estreita e está longe de garantir qualquer desfecho. Mas, se conseguir transformar o reduto mais leal da esquerda em território efetivamente disputado, terá alcançado algo que seu próprio pai jamais conseguiu: chegar ao Planalto sem depender de uma vitória onde o PT sempre acreditou governar sem contestação.
