Aceitar o Pé-de-Meia ou dar um pé nas costas de um presidente que tenta comprar votos? Essa é, na verdade, a escolha que os brasileiros enfrentam nesta reta final da campanha. Diante de uma eleição difícil e de uma rejeição crescente, Lula resolveu descobrir, a poucas semanas do segundo turno, soluções para problemas que conviveram tranquilamente com seu governo durante anos.
O espetáculo é tão transparente que chega a ser constrangedor. De repente, impostos sobre combustíveis são reduzidos, dívidas bilionárias de microempreendedores podem ser perdoadas, novos benefícios são prometidos a estudantes, medidas de segurança pública são anunciadas e uma série de incentivos surge em velocidade recorde. A pergunta inevitável é simples: se tudo isso era tão importante e urgente, por que não foi feito antes?
O governo afirma que as medidas têm justificativas técnicas. Talvez algumas realmente tenham. Mas a política não vive apenas de justificativas; vive também de contexto. E o contexto mostra um presidente em dificuldades eleitorais anunciando benefícios populares em sequência, justamente quando mais precisa conquistar votos. O eleitor brasileiro não é ingênuo. Ele sabe reconhecer a diferença entre governar e fazer campanha usando a máquina pública como vitrine.
O caso do Pé-de-Meia universitário é emblemático. Lula promete pagamentos futuros que sequer começarão imediatamente, apresentando como conquista concreta algo que dependerá de recursos, aprovação política e execução nos próximos anos. É a velha estratégia de oferecer vantagens hoje e empurrar a conta para amanhã. O benefício é imediato para a campanha; o custo fica para o contribuinte.
O mesmo vale para o perdão de dívidas dos MEIs. Milhões de brasileiros que lutam honestamente para manter suas contas em dia assistem ao governo anunciar bilhões em anistias justamente em período eleitoral. Que mensagem isso transmite? Que vale mais a pena esperar pelo próximo perdão do que cumprir suas obrigações? Políticas públicas devem estimular responsabilidade e crescimento econômico, não servir como instrumentos de sedução eleitoral.
Na segurança pública, a história não é diferente. O bloqueio de celulares em presídios é uma demanda antiga da população. Durante anos, o problema persistiu. Agora, a poucos dias da votação, surge uma repentina urgência para resolvê-lo. Não é difícil entender por que tanta gente vê nessas iniciativas mais cálculo político do que compromisso real com resultados.
O problema de fundo é que Lula parece apostar que o brasileiro tem preço. Parece acreditar que uma sequência de benefícios anunciados às pressas será suficiente para apagar anos de insatisfação, de promessas não cumpridas e de problemas persistentes. É um erro de avaliação. O cidadão pode até apreciar um desconto na bomba de combustível ou um novo programa social, mas também sabe que não existe dinheiro público gratuito. Tudo o que é distribuído hoje será pago amanhã, de uma forma ou de outra.
A eleição, portanto, não é apenas uma disputa entre candidatos. É um teste de maturidade democrática. O brasileiro terá de decidir se aceita trocar seu futuro por benefícios oportunistas de última hora ou se dará uma resposta firme a uma estratégia que muitos enxergam como uma escancarada tentativa de comprar consciências. Porque governos passam, campanhas terminam, mas as consequências das escolhas feitas nas urnas permanecem por muitos anos.
