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011 News > Rodrigo Piernas Andolfato > Banco do Brasil: lucro bilionário, mas um alerta para a economia brasileira

Banco do Brasil: lucro bilionário, mas um alerta para a economia brasileira

Rodrigo Piernas Andolfato
Última atualização: 24/08/2026 | 17:16
Por Rodrigo Piernas Andolfato
Publicado em 24/08/2026
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6 Min
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Estreio minha participação neste conceituado portal de notícias tratando de aspectos econômicos que podem e vão impactar no nosso dia a dia. A ideia é fazer análises econômicas baseadas em dados concretos, os quais nos são apresentados pelo mercado e que tentarei simplificar de forma clara para que o leitor possa sempre tomar suas decisões baseadas numa visão prática e aplicativa. Na ultima semana, o Banco do Brasil apresentou no resultado de seu balanço do segundo trimestre de 2026 um lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, resultado até superior às expectativas do mercado. À primeira vista, trata-se de um balanço positivo, e quem se atreveria a dizer que R$ 3,9 bilhões não é um bom resultado? O banco continua sólido, capitalizado e distante de qualquer cenário que permita afirmar que esteja próximo de uma insolvência. Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela sinais que merecem atenção.

O principal deles está na qualidade do crédito. Devemos lembrar que o bem de consumo, o produto, que o banco vende, no fim das contas é o crédito a terceiros. O custo do crédito aumentou, a cobertura dos créditos inadimplentes caiu de 183,2% para 148,5% e a inadimplência permanece elevada. No agronegócio, setor no qual o Banco do Brasil possui enorme exposição, chegou a 6,27%. Além disso, até R$ 100 bilhões em créditos rurais poderão ser objeto de renegociação. E aqui está a questão fundamental: renegociar uma dívida não significa necessariamente recuperar o crédito. Parte dessas operações poderá voltar a ser adimplente, mas outra parte poderá transformar-se em novas perdas e provisões nos próximos balanços.

Outro número merece especial atenção: o retorno sobre o patrimônio, o ROE, ficou em apenas 8,3%, e nem precisamos falar que isso reflete na distribuição de resultados para os acionistas. Hoje cada R$ 1,00 investido em ações do banco traz de retorno algo próximo dos 3 a 3,4% ao ano. Em muitos países, um retorno dessa magnitude poderia ser considerado bastante respeitável. No Brasil, porém, precisamos olhar esse número em conjunto com a taxa básica de juros. Com a Selic atualmente em 14% ao ano, o investidor encontra nos títulos públicos uma alternativa de elevada liquidez e remuneração muito superior ao retorno sobre o patrimônio apresentado pelo BB.

Por que assumir o risco de investir em ações de uma empresa, sujeitando-se à volatilidade e à possibilidade de perda de capital, se o próprio Estado oferece uma remuneração elevada para captar recursos? Esse é um dos grandes problemas estruturais da economia brasileira: o Estado compete diretamente com as empresas pelo capital disponível. Sim, o Estado compete com o mercado pelo dinheiro poupado das pessoas.

Quando o governo precisa buscar enormes volumes de recursos para financiar seus déficits, oferece juros elevados para atrair a poupança. O capital, então, deixa de financiar investimentos produtivos e encontra no próprio Estado uma alternativa mais segura e atraente. Menos capital disponível para empresas significa crédito mais caro, menos investimentos, menor expansão produtiva e maior dificuldade para famílias e empresas honrarem suas dívidas.

Por isso, reduzir juros não significa simplesmente determinar que o Banco Central baixe a Selic. Uma redução sustentável exige atacar a causa do problema: reduzir gastos públicos, diminuir a necessidade de financiamento do Estado e recuperar a confiança na trajetória da dívida pública.

O balanço do Banco do Brasil, portanto, não deve ser interpretado como uma notícia de que o banco está quebrando. Não está, até porque, antes dos bancos, vamos todos nós estar quebrados. Mas ele funciona como um importante sinal amarelo para a economia brasileira. A inadimplência elevada, especialmente no agronegócio, o aumento do custo do crédito, as renegociações e o baixo retorno sobre o patrimônio mostram que os efeitos dos juros elevados e do endividamento já estão chegando aos balanços das instituições financeiras.

O verdadeiro risco está em transformar um problema de crédito em um problema sistêmico. Crédito é o sangue da economia de mercado. Empresas precisam dele para investir, produtores para produzir e famílias para consumir, sendo que este último deveria ser uma parte muito pequena do crédito. Se o Estado continuar absorvendo parcela excessiva da poupança nacional, o setor privado continuará pagando caro pelo capital. O alerta do Banco do Brasil, portanto, vai muito além do próprio banco. É um alerta de que o Brasil precisa, com urgência, enfrentar seus desequilíbrios fiscais, reduzir a necessidade de financiamento público e devolver o capital à produção.

O problema não é apenas quanto o Banco do Brasil lucrou hoje. A pergunta é quanto a economia brasileira conseguirá crescer amanhã se o Estado continuar sendo o principal concorrente das empresas pelo dinheiro disponível.

Rodrigo Piernas Andolfato
Economista autodidata, engenheiro, Embaixador do Foro Alberdiano Internacional no Brasil

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