As ruas voltaram a pulsar. O manifesto recente na Avenida Paulista, clamando por “Fora Lula”, “Fora Moraes” e “Fora Toffoli”, ecoa o sentimento de uma parcela significativa da população que não suporta mais a inércia institucional e o avanço do autoritarismo. No entanto, é preciso honestidade intelectual na análise: enquanto o Brasil foca seus olhos nos palácios do Planalto e do STF, o verdadeiro “cadeado” da República permanece operando nas sombras, em uma cadeira de veludo no Senado Federal.
Davi Alcolumbre (União-AP) não é apenas o presidente do Senado; ele é o filtro por onde a vontade popular morre. Não adianta reunir milhões nas ruas se o homem que detém a chave da gaveta se recusa a girá-la. Hoje, o senador amapaense mantém paralisados mais de 60 pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal, alegando uma suposta busca por “pacificação”. Na prática, o que vemos é uma blindagem mútua que mantém o sistema intocado.
O “modus operandi” de Alcolumbre vai muito além da pauta ideológica; ele é movido pelo pragmatismo do poder regional e pelos interesses de sua dinastia no Amapá. Enquanto o país discute moralidade, o senador negocia a Margem Equatorial. Alcolumbre tem usado a exploração de petróleo na costa do seu estado como uma gigantesca moeda de troca com o governo Lula. O objetivo? Garantir que o Ibama e o Ministério de Minas e Energia operem conforme seus interesses eleitorais, transformando o potencial energético do Brasil em combustível para seu curral político.
A proteção não para no petróleo. Recentemente, vimos o espetáculo deprimente na CPMI do INSS, onde a convocação de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, foi alvo de manobras escusas. Alcolumbre, como senhor soberano da Casa, tem o poder de decidir se anula ou mantém votações polêmicas, agindo como o escudo final para a família presidencial em troca de governabilidade e, claro, emendas.
Mas por que ele é tão resiliente? A resposta está nas investigações que cercam seu círculo íntimo. De operações da Polícia Federal sobre desvios na previdência do Amapá (Amprev) — envolvendo indicações diretas suas — a suspeitas de uso de jatinhos de empresas com contratos públicos, o senador vive sob a sombra do Judiciário.
É uma matemática perversa que aniquila qualquer anseio do povo brasileiro: Alcolumbre protege os ministros do STF de processos de impeachment; em contrapartida, os processos que envolvem seus aliados e familiares avançam a passos de cágado nas instâncias superiores. É o “pacto de não agressão” que mantém o Brasil refém.
A Matemática Federativa a favor do Norte e Nordeste
Mas como um ser pusilânime, que exprime o atraso no Brasil, volta novamente à presidência do Senado?
O eleitor do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste precisa entender que a sua indignação está sendo estancada por uma engenharia política que privilegia o “baixo clero” do Norte e Nordeste. Na Câmara dos Deputados, o número de cadeiras é proporcional à população, no Senado cada estado tem igualmente 3 senadores.
Os estados do Norte e Nordeste somam 16 estados (7 no Norte e 9 no Nordeste). Isso representa 48 senadores de um total de 81. Ou seja, quem domina as alianças nessas duas regiões já tem, de partida, quase 60% dos votos necessários para eleger o presidente da Casa. São Paulo, com 46 milhões de habitantes, tem os mesmos 3 votos que o Amapá, com menos de 1 milhão. Alcolumbre só preside o Senado porque estamos sempre com a conta do menos pior.
Destituição da Presidência (Perda do Cargo, não do Mandato)
O Presidente do Senado não sofre impeachment, mas pode ser destituído por decisão interna dos próprios pares. Qualquer senador pode apresentar um requerimento de destituição. Se aprovado por maioria absoluta (41 votos) no plenário, ele perde a cadeira de presidente, mas continua sendo senador.
Não basta pedir “Fora Moraes” se não exigirmos o “Fora Alcolumbre” da presidência da Casa. Sem quebrar esse cadeado, o Brasil continuará sendo um país onde a lei só vale para quem não tem uma gaveta para chamar de sua. É hora de a direita nacionalizar a cobrança e expor cada parlamentar que sustenta essa ditadura do silêncio imposta pelo senador do Amapá.
O Brasil não está parado por falta de vontade do povo. O Brasil está trancado por dentro. E a chave está na mão de Davi Alcolumbre.








