Com 82% das famílias endividadas e o custo do crédito em patamar restritivo, executivos do varejo e da construção civil relatam retração de investimentos e comportamento mais seletivo do consumidor. Cenário aumenta a pressão por cortes mais céleres na taxa básica de juros.
O acúmulo de compromissos financeiros e a manutenção da taxa básica de juros (Selic) em nível restritivo começam a gerar reflexos diretos na atividade operacional dos principais setores produtivos do país. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento das famílias brasileiras alcançou a marca recorde de 82% em julho, pressionando o orçamento doméstico e alterando a dinâmica de consumo.
Diante do cenário, executivos do mercado já dimensionam os impactos macroeconômicos no caixa das empresas. No setor de varejo de vestuário, a racionalização das compras tem sido a principal mudança de comportamento observada. Líderes do segmento apontam que o custo do crédito diminuiu a flexibilidade das companhias para movimentos de investimento de longo prazo e tornou o consumidor mais cauteloso na tomada de decisão.
A pressão também atinge o setor imobiliário e de construção civil. Embora programas habitacionais contem com taxas diferenciadas, a elevada inadimplência geral da população e o travamento do crédito no mercado tradicional adiam o acesso à moradia própria e reduzem a liquidez das operações.
Inadimplência e desafio no crédito
O avanço das dívidas não limita apenas a ponta do consumo, mas afeta a estrutura financeira dos próprios agentes credores. Representantes do setor financeiro e bancário ressaltam que taxas de juros excessivamente elevadas atuam a favor da inadimplência, encarecendo a rolagem dos passivos operacionais das empresas e das dívidas de pessoas físicas.
Para analistas do mercado financeiro, a redução dos juros básicos é vista como essencial para restabelecer a capacidade de pagamento das famílias e destravar o capital de giro no varejo. Contudo, a transmissão da política monetária para as pontas finais do crédito ocorre de maneira gradual, sinalizando que a recuperação da margem das empresas e do poder de compra ainda dependerá de maior estabilidade fiscal nos próximos meses.

