Em toda eleição existe um argumento que vai além das promessas de campanha, dos programas de governo e das estatísticas econômicas. É o argumento do caráter. O eleitor observa o histórico dos candidatos, suas palavras, seus valores e as causas que escolhem defender. Afinal, presidentes não governam apenas por meio de decretos. Governam também pelo exemplo que oferecem à sociedade.
Nos últimos anos, Lula da Silva acumulou uma série de declarações que provocaram perplexidade mesmo entre brasileiros acostumados à retórica exagerada da política nacional. A mais recente delas, ao afirmar que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas”, reacendeu um alarme que vai muito além da intenção original da fala. Embora aliados tenham se apressado em contextualizar a declaração, o episódio reforçou uma percepção que acompanha Lula há décadas: a de um líder que frequentemente trata temas delicados com uma desconcertante falta de cuidado, na melhor das hipóteses.
O problema não está apenas em uma frase isolada. Ao longo de sua trajetória política, Lula colecionou comentários que geraram acusações de machismo, insensibilidade ou inadequação. Em diferentes momentos, suas palavras provocaram desconforto justamente por transmitirem a impressão de que certas questões são abordadas com deboche ou excessiva informalidade. Quando isso acontece repetidamente, o problema deixa de ser apenas uma questão de comunicação e passa a ser um problema de julgamento.
Mais preocupante ainda é a dificuldade demonstrada por setores do governo e da militância em reconhecer que determinadas falas simplesmente não deveriam ser feitas. Em vez de admitir o erro, a reação costuma ser transferir a responsabilidade para quem ouviu, interpretou ou criticou. O resultado é um ambiente político em que a autocrítica desaparece e qualquer questionamento é tratado como perseguição.
Também não pode ser ignorada a postura historicamente complacente do petismo em relação a governos que restringem liberdades civis e enfraquecem instituições democráticas. Em uma época em que a defesa da democracia deveria ser um princípio inegociável, relativizar autoritarismos por afinidade ideológica é um erro grave. Direitos humanos, liberdade de imprensa e respeito à oposição não podem ser defendidos apenas quando convêm politicamente.
Para muitos brasileiros, portanto, a escolha eleitoral vai além das preferências partidárias. Ela envolve uma visão de mundo. Envolve decidir se o país deve ser conduzido por lideranças que demonstram clareza moral diante de temas fundamentais ou por figuras que frequentemente se veem obrigadas a explicar o que realmente quiseram dizer. A confiança pública é construída pela coerência entre discurso e prática.
É por isso que tantos eleitores resumem sua posição em uma frase simples, mas poderosa: meu candidato tem dez dedos, respeita as meninas e não apoia ditaduras. A referência aos dez dedos não fala de uma condição física. Fala de responsabilidade. Fala de postura. Fala da convicção de que o problema de um líder não está em suas limitações corporais, mas em suas escolhas, suas palavras e seus valores.
No final, a decisão pertence ao eleitor. Em uma democracia, cada cidadão deve analisar os fatos, ouvir os argumentos e votar de acordo com sua consciência. Mas para muitos brasileiros, a conclusão já está formada. Não rejeitam Lula porque lhe falta um dedo. Rejeitam porque acreditam que lhe falta algo muito mais importante para governar um país: respeito, discernimento e compromisso inequívoco com os valores democráticos. Afinal, meu candidato tem dez dedos, respeita as meninas e não apoia ditaduras. Por isso não apoio Lula. Não porque esteja faltando um dedo, mas porque falta um palmo de vergonha na cara.
